Review: RAYE — THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. (2026)

Passeando pelo site record.club, uma capa de disco me chama atenção: uma mulher com um vestido vermelho puxando firmemente uma corda. Ela contrasta com o fundo de nuvens escuras, como uma tempestade prestes a acontecer. Porém, a corda que ela puxa está abrindo uma espécie de porta no próprio céu, mostrando um azul limpo logo atrás, revelando o nome do disco. E esse nome também gritou e chamou atenção: ESTA MÚSICA PODE CONTER ESPERANÇA.

Até o momento nunca tinha ouvido falar da artista britânica Rachel Agatha Keen, mais conhecida por seu nome artístico RAYE, mas como bom apreciador de capas de discos, dei a chance… e digo que foi a melhor coisa que fiz, pois ouvi um dos melhores discos dos últimos anos (quiçá meu Álbum do Ano de 2026).

Acredito que RAYE quis ser modesta com o título ao dizer que podia conter esperança, sendo que na verdade ele a esbanja! Aproveito até para citar o George Luke, em seu artigo na Premier Christianity, em que utiliza o texto de Lucas 6:38, dizendo que a esperança do álbum vem “em boa medida, compactada, sacudida para caber mais, transbordante e derramada sobre vocês.” (NVT). E como ela mesma trouxe em algumas entrevistas, essa esperança veio por meio da fé.

RAYE nasceu em um lar cristão e, infelizmente, acabou se afastando por um tempo. Dentro da indústria teve seus problemas, sofreu abusos psicológicos e violência sexual, que como tentativa de fuga, levaram-na a se tornar uma dependente química. Muito dessa história pode ser escutada, de forma bem crua (e explícita) em seu primeiro disco, o 21st Century Blues, que veio logo quando saiu das garras da Polydor Records. Vale o aviso: o álbum não poupa o ouvinte de vocabulário e descrições explícitas, refletindo a dureza da realidade que ela viveu.

Em uma entrevista à BBC no ano de 2023 ela comentou que se não tivesse encontrado a fé em Cristo novamente, talvez nem estivesse aqui. E é a partir daqui, dessa redenção e retorno à fé (na mesma entrevista é dito que ela faz reuniões aos domingos em sua casa), podemos falar sobre o disco de 2026 que tanto me chamou a atenção.

Essa esperança e fé não ficaram restritas apenas em conversas, mas veio em forma de música no seu segundo álbum. Não é um álbum que podemos classificar como cristão no sentido de músicas a serem cantadas na igreja, mas cristão no sentido de refletir os altos e baixos de uma vida buscando uma transformação de vida. A mensagem está sendo gritada para todos! É tão intensa essa percepção que a CCM Magazine brincou no título de sua análise o fato de não ser um álbum de fé, mas sim de sobrevivência!

Além do excelente storytelling, que está dividido em 4 atos, a produção visual (vista nos clipes) e musical são de altíssimo nível! Isso fica claro quando vemos as participações especiais, como Hans Zimmer em “Click Clack Symphony.” e Al Green em “Goodbye Henry.”. Não menos importante, apesar de menos conhecido, seu avô Michael canta e conversa com RAYE em “Fields.”; e suas irmãs Absolutely e Amma participam na música “Joy.”, onde cantam no refrão o Salmo 30:5.

Apresentação ao vivo no Radio City Music Hall. Amma à esquerda, RAYE no centro, e Absolutely à direita.

A esperança, fé e o cristianismo permeiam o disco. A fórmula pop é bem presente, também, mas com um respiro muito bom, trazendo elementos de Jazz e R&B. Até eu, que gosto de música mais pesada e apenas “bater cabeça”, sinto vontade de dançar quando estou ouvindo. Os comentários na apresentação do The Late Show não me deixam mentir!

Este álbum te leva pro clube e então pra igreja

Os quatro atos podem ser chamados de “As Quatro Estações”. Tudo começa com o Outono (Ato 1), sendo as 4 primeiras músicas do disco. Assim como nessa estação vemos as plantações murchando, as letras mostram uma desorientação emocional, introspecção e o começo da busca por sentido. Na sequência temos o Inverno (Ato 2), onde vemos a resistência, a fé e esperança nas músicas 5 a 8. É aqui que a dor, solidão, clamor a Deus e a oração por um salva-vidas são gritantes.

As estações do ano são cíclicas, então logo a Primavera (Ato 3) chega com as músicas 9 a 12. Tudo começa a descongelar e vem a luta para nascer novamente. Não é “do nada”, mas são momentos de cura, de encerramento e retomada de relacionamentos e reconexão com memória a familiar! A restauração começou. E, quando a restauração está acontecendo, vemos, por fim, o Verão (Ato 4). A alegria chegou e é plena, não como fantasia, mas como prática. É tempo de celebrar e afirmar a esperança com as músicas 13 a 17.

Para encerrar, cito um trecho da música “Fin.”, que fecha esse maravilhoso álbum:

A esperança deve sempre existir, e está acima das nuvens (…) E como diz no encarte, nos ventos, isto pode conter esperança. E se você não a encontrar, então devo te aconselhar. Estou educadamente pedindo que se você não encontrou esperança, meu amigo, nós te aconselhamos a ouvir [o álbum] novamente.


Álbum: THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE.
Artista: RAYE
Ano de Lançamento: 2026
Gênero: Pop, Jazz, R&B

Créditos: MUITA GENTE (risos). Vale olhar os dados no Tidal ou a letra da última música, onde ela cita todos envolvidos.

Faixas do Álbum (que curiosamente terminam com pontuação, assim como o titulo do disco):

  1. Intro: Girl Under the Grey Cloud.
  2. I Will Overcome.
  3. Beware.. The South London Lover Boy.
  4. The WhatsApp Shakespeare.
  5. Winter Woman.
  6. Click Clack Symphony. (feat. Hans Zimmer)
  7. I Know You’re Hurting.
  8. Life Boat.
  9. I Hate the Way I Look Today.
  10. Goodbye Henry. (feat. Al Green)
  11. Nightingale Lane.
  12. Skin & Bones.
  13. WHERE IS MY HUSBAND!
  14. Fields. (feat. Grandad Michael)
  15. Joy. (feat. Absolutely & Amma)
  16. Happier Times Ahead.
  17. Fin.

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