
Este devocional foi inspirado em uma experiência pessoal com a música “Tudo Fica Bem” de Mauro Henrique.
“Mas a vida é uma caixinha de surpresas.” Por volta de 2006, essa frase eternizada em uma esquete do programa do Jô Soares virou bordão no meu círculo social. Quem diria que, anos depois, ela ecoaria em minha mente com um peso completamente diferente.
Entre 2021 e 2022, vivi o que posso chamar de uma “montanha-russa emocional e espiritual”. Foram anos paradoxais: ao mesmo tempo que celebrava meu casamento (fonte constante de alegria e bênçãos), enfrentava uma sequência implacável de adversidades. Problemas se acumulavam, diagnósticos desagradáveis chegavam, e até mesmo um golpe financeiro se somou ao pacote. Era como se a vida tivesse aberto sua “caixinha” e despejado tudo de uma vez.
Em meio a esse turbilhão, encontrei-me na pele de Jó. As perguntas existenciais brotavam naturalmente: “Por que eu, Senhor?” A angústia era real, mas – curiosamente – a percepção da providência divina também. Mesmo quando tudo parecia desmoronar, havia um sustento inexplicável, uma presença que me mantinha de pé.
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; (Salmo 23.4).
Davi conhecia essa realidade, e eu estava aprendendo na prática o que significa caminhar nesse vale com a mão do Pastor.
Um dia particularmente difícil coincidiu com uma “viagem” até o escritório da empresa que trabalhava na época. Um trajeto de uma hora dirigindo. O tempo perfeito para uma trilha sonora que, sem eu saber, mudaria minha perspectiva. Sempre apreciei o trabalho de Mauro Henrique (embora a opinião deste que vos escreve sobre sua fase no Oficina G3 seja tema para uma roda de pizza e Coca-Cola), mas seu álbum de 2021 havia ficado na gaveta dos “ouço depois” até aquele momento.
Foi então que “Tudo Fica Bem” começou a tocar. As primeiras palavras me atingiram como um soco certeiro:
Aqui estou mais uma vez pedindo para me levantar. Me falta forças, meu Deus. Vem me ajudar.
Era exatamente isso! Cada palavra descrevia meu estado interior com uma precisão cirúrgica. Mas o que veio depois foi ainda mais impactante:
Tu me salvas de mim mesmo e do cansaço dessa estrada. Faz Tua obra em mim, meu Deus. Vem me transformar.
Ali estava a resposta que eu precisava ouvir. Paulo expressa essa verdade em sua carta aos Romanos:
“Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, sou escravo da lei do pecado.” (Romanos 7:24-25 NAA)
Não sou melhor que ninguém. Entre pecadores, talvez seja o pior (como Paulo mesmo se considerava em 1 Timóteo 1:15). Contudo, é exatamente nessa condição que Deus estende Sua mão protetora. Sua graça não é apenas suficiente – ela se aperfeiçoa na fraqueza.
“Então ele me disse: “A minha graça é o que basta para você, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.” De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.” (2 Coríntios 12:9 NAA)
Quando o refrão tocou, este filho Presbiteriano começou a chorar feito criança. Por quê? Porque quando fixamos nossos olhos no Pai celestial, nosso protetor e consolador, tudo realmente fica bem. Ele é quem aquieta os medos que perturbam nossa alma. Como disse Jesus:
“Falei essas coisas para que em mim vocês tenham paz. No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo.” (João 16:33 NAA)
A chave está em nos apegarmos mais a Deus, permitindo que Sua luz dissipe toda escuridão que sentimos. Afinal,
“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28 NAA)
Lembro-me de uma ilustração que ouvi anos atrás: um pai entra no elevador com seu filho pequeno. Inicialmente vazio, o elevador vai se enchendo a cada andar. A criança, cercada por estranhos, começa a se assustar. Mas o pai, olhando por cima de tudo, sabe que está tudo sob controle. Basta a criança segurar sua mão – ele cuidará do resto.
Assim é nosso Pai celestial. Ele vê o que não conseguimos enxergar, conhece cada detalhe de nossas angústias e tem controle absoluto sobre todas as circunstâncias.
Deus não está apenas esperando nossa confiança – Ele está ativamente trabalhando em nós. Paulo nos assegura:
“Estou certo de que aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus.” (Filipenses 1:6 NAA)
“Lancem sobre ele todas as suas ansiedades, porque ele cuida de vocês” (1 Pedro 5:7 NAA)
Tudo fica bem quando olhamos para Deus. Tudo fica bem quando O percebemos conosco, trabalhando em nós e através de nós.
No fim das contas, a receita é simples, embora não necessariamente fácil: entregar-se e confiar. Reconhecer que “os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês, e os caminhos de vocês não são os meus caminhos”, diz o Senhor.” (Isaías 55:8 NAA), mas que Seus caminhos são sempre perfeitos.
Mauro Henrique acertou em cheio. Às vezes precisamos de uma música para nos lembrar do que já sabemos em teoria. E quando isso acontece, não há problema algum em chorar – mesmo sendo presbiteriano.
- Assista a uma performance ao vivo da música clicando aqui.
- Escute na sua plataforma de streaming favorita clicando aqui.
- Leia a letra da música clicando aqui.



