AM Entrevista Sick Moreira: “era uma brincadeira, sem pretensão”

Se você não esteve em uma caverna nos últimos meses, deve ter visto alguém conhecido, ou até mesmo viu alguma página compartilhar um coelhinho fofo cantando os Salmos em deathcore. Estamos falando de ninguém mais, ninguém menos que o Sick Moreira!

Tivemos a honra de trocar uma ideia com o coelho mais brutal da internet dos últimos meses. Segue a nossa conversa com ele.

Para quem está te conhecendo agora, como você se apresenta com tua história pessoal e de fé?

Sou produtor musical, atuo no mercado desde 2010. Venho de uma família católica, sou batizado, fiz crisma e praticava a eucaristia quando frequentava a igreja com meus avós, mas me tornei um adolescente muito questionador e sigo até hoje buscando respostas. Não sinto que minha fé se conecte com alguma tradição religiosa específica atualmente. Ela se manifesta de forma muito mais pessoal e íntima, e sempre em constante aprendizado, absorvendo de fontes que muitas vezes (inclusive nos comentários dos meus vídeos hahaha) acabam se atacando apesar de seguirem o mesmo Deus.

E musicalmente, como têm sido suas experiências até aqui? 

Música é o norte da minha vida, desde criança ouvindo fitas e CDs nos anos 90 até aprender meu primeiro instrumento, começar a fazer minhas primeiras gravações e finalmente entrar pro mercado de trabalho.
Hoje em dia é minha profissão, continua sendo a arte que me encanta, e também é meu hobbie!

A escolha pelo Sick Moreira é uma clara inspiração/homenagem ao saudoso Cid Moreira? Caso sim, conta pra gente a história desse trocadilho.

Sim! A ideia de criar músicas com os salmos foi completamente inspirada no trabalho do Cid narrando trechos da bíblia. Escutei em algum momento um salmo de tom agressivo, pedindo ajuda a Deus para enfrentar seus inimigos. Vários tem essa premissa, não lembro exatamente qual foi.
O peso das palavras, com uma música de fundo orquestrada trazendo um clima de preparação para a guerra, junto com minhas influências musicais mais recentes me fizeram imaginar como seria uma banda, como Lorna Shore, recitando os salmos. A ideia me pareceu absurda e surreal, e acho que justamente por esse motivo resolvi um dia usar uns riffs que estavam engavetados e fazer essa experiência! Ideias absurdas normalmente são as que mais me atraem musicalmente. Sick também é uma palavra muito comum no meio da música pesada, sem o sentido literal, então fez sentido pela sonoridade e pelo trocadilho com a inspiração!

Até então, você prefere o anonimato. As pessoas te conhecem somente pelo perfil, música e personagens. Isso foi uma escolha intencional? Tem pretensão de dar as caras nas redes? 

Até pretendia dar as caras, mas com a proporção que o projeto tomou e vendo as pessoas se identificarem de formas completamente diferentes, acabei repensando isso. Certamente dar as caras influenciaria e direcionaria o público, e o que eu achei mais bonito nisso tudo foi observar cada um recebendo a mensagem de uma forma pessoal, sem saber o que eu queria com aquilo. Recebi mensagens emocionantes de evangélicos, católicos, ortodoxos, espíritas, e até de pessoas que, como eu, não se identificam com uma instituição religiosa específica. Também recebi mensagens positivas de pessoas do candomblé, umbanda, e até mesmo de ateus. Quero que isso continue assim!

É inegável a genialidade do contraste da estética visual com a sonora. Como foi o processo criativo que levou a esse resultado – incluindo os personagens hilários Eloy Patagrande e Francisco Fresno? A parte visual também foi feita por você?

Isso foi totalmente ao acaso. Estava estudando geração de imagens com IA e fiz os personagens como uma espécie de treinamento, já tinha as músicas e decidi fazer um vídeo para o primeiro salmo. Em seguida fui criando vídeos curtos e então surgiram o Eloy e o Chico pra complementar as músicas. Fui postando por duas semanas para 50-100 pessoas sem muita pretensão além de um estudo pessoal, até que viralizou!

Você é responsável por toda a produção das faixas, certo? Conta pra gente como se deu esse processo. Tem IA envolvido no meio? 

Tem IA sim! Inclusive isso virou uma “acusação” frequente, mesmo eu nunca tendo negado! Sobre o meu processo, eu geralmente crio os riffs, ou uma linha de bateria, e uso IA generativa para concluir a música. O que muitos imaginam é que termina por aí, mas pelo menos a IA que eu uso ainda não chegou lá. Ainda acabo separando os instrumentos, editando partes, colocando guitarras, gravando e regravando voz, além de fazer uma mixagem e depois de cada música pronta, masterizar tudo em um disco. É um processo trabalhoso, se não fosse já teria lançado os 150 salmos, mas meu lado artista não me deixa lançar algo que não me deixou satisfeito pro mundo.

Eu sou uma pessoa que vive da arte, e além de criar (por 17 anos sem IA, comecei a usar literalmente nesse projeto há uns 3 meses hahaha) eu também já trabalhei com centenas de criadores, e afirmo que a IA hoje não tem como substituir completamente um artista! Um péssimo artista com a mais tecnológica das ferramentas vai criar uma péssima arte. Já gravei discos da forma mais orgânica possível, usando equipamentos das décadas de 50-60, e também já gravei discos usando os recursos mais modernos disponíveis. Tudo é questão de estética, não existe certo ou errado na arte, só depende de como você usa. Hoje existe um debate acalorado sobre o uso de IA generativa (e eu digo especificamente generativa, pois o uso de outros tipos de IA na música é completamente normal há anos e pouca gente comenta), mas eu vejo isso como mais uma ferramenta a ser usada de forma a facilitar o trabalho do artista, como a gravação digital também foi nos anos 90, as interfaces de audio se tornando cada vez mais acessíveis durante os anos 2000, os programas de afinação de voz, etc.

Toda novidade tecnológica veio coberta de preconceito até o surgimento da próxima. Isso é normal! Há os que passam reclamando, e os que se adaptam e tiram o melhor proveito. Eu sou do segundo time, pois eu sei que não se pode frear a evolução tecnológica. Continuo admirando com todo o amor do mundo a gravação analógica, principalmente os trabalhos dos anos 70 que formaram meu gosto pessoal, mas sei que isso é algo impraticável no dia a dia dos artistas em 2025, assim como é impraticável usar um V8 dos anos 70 hoje, todos os dias, pra ir pro trabalho, mercado, pegar as crianças na escola. Virou carro de colecionador, que ama muito o processo todo de ter um carro assim, conhece o meio, entende de mecânica, e que só usa no final de semana ou em encontros de carros antigos. Mesma coisa na produção musical, eu mesmo fico babando nos gravadores de fita da década de 70, a sonoridade deles, inclusive sou feliz demais quando tenho a oportunidade de usar em algum trabalho, mas agradeço demais pela possibilidade de botar um estúdio completo em uma mochila e viajar com ele quando necessário!

Toda novidade tecnológica veio coberta de preconceito até o surgimento da próxima. Isso é normal! Há os que passam reclamando, e os que se adaptam e tiram o melhor proveito.

É impressão nossa ou a ideia inicial era uma brincadeira que foi crescendo e crescendo – ao ponto de virar disco e tudo mais?

Exatamente! Era uma brincadeira, sem pretensão, que servia mais como um treinamento para aplicar meus estudos de IA, mas acabou se conectando com muitas pessoas!

Falando nisso, o breakdown K-pop foi um vai-que-cola ou realmente você tem pretensão de investir nessas experimentações? 

Nada, nesse quadro eu faço o que vem na cabeça mesmo, de forma humorada. Fazer um breakdown k-pop foi só um surto esquisito de criatividade hahaha.

Parece que a escolha de transformar os versos dos salmos em breakdown foi um dos principais motivos para cativar/conectar com o público. Por que gravar especificamente os Salmos?

Mais uma vez, da inspiração dos discos do Cid Moreira! Sempre que lembro da figura do Cid eu lembro dos Salmos, até mais do que do jornalista. Acho que tem algo da minha criação lá nos anos 90 que deixou isso marcado hahaha.

Nos stories, você já comentou que teu trabalho já furou “bolhas” religiosas. Como tem sido a recepção para quem é “de fora” da tradição evangélica?

Tem sido maravilhosa, como falei antes, até ateu tem deixado mensagens positivas. Também tem as pessoas que consideram blasfêmia, zoação, se incomodam… já recebi algum nível de hate de todas as vertentes do cristianismo, mas é insignificante comparado aos que respondem positivamente. Às vezes rola umas coisas esquisitas entre os seguidores também, como quando postei um caminhão com a imagem de Maria ao lado de Jesus e rolou uma discussão infinita e até desrespeitosa em alguns momentos entre quem considerava positivo a imagem de Maria, e quem considerava idolatria. Essa verdade absoluta que todos acreditam ter foi o que me trouxe experiências negativas e me afastou de seguir um caminho dentro de uma religião específica, mas por outro lado fez com que eu me encontrasse com a minha fé, que não acredito que venha ao caso ser explicada, mas que foi uma virada de chave importante na minha vida.

E o futuro? O que está nos teus planos? Você fez uma brincadeira com Kevin Bosio sobre uma possível colaboração, mas acha que sairá um feat real nos próximos lançamentos?

Conheci o Kevin depois que o Sick Moreira viralizou, pessoal me mandando os reels onde ele bota um blast beat fritáço em músicas evangélicas, e faz todo o sentido o pessoal fazer essa relação! Trocamos algumas ideias, e o cara é o baterista mais impressionante tecnicamente que já tive contato. É possível um feat sim, se acontecer vai ser uma honra! 

Há chances de o público ver Sick Moreira no palco?

Por enquanto, com filhos pequenos, não tem espaço na minha vida pra imaginar isso acontecendo. Talvez algum show pontual possa acontecer, mas não tem nada nos planos ainda.

Que conselho você daria para jovens artistas que têm um sonho e computador nas mãos?

Crie a música que você, dentro dessa sua cabecinha criativa cheia de gostos pessoais construídos pelo emaranhado de arte que desde a infância até hoje foram te marcando, gostaria de ouvir mas ainda não tem nos streamings pois você ainda não fez.


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