Quem tem coragem de revisitar seu passado e enfrentar seus fantasmas?
O trio pernambucano Zambrotta assim fez. Após um hiato de 6 anos, eles voltaram a se reunir e produzir músicas que resultaram no disco de estreia “Ensaio Sobre a Noite e o Dia”. Está na nossa essência ajudar a dar visibilidade para o lado B da música nacional e vibramos muito a cada nova descoberta. Zambrotta é uma delas. Um grupo “sem vergonha” de ser. Sob uma nudez de sentimentos, eles expõem as fragilidades de uma geração que representa a humanidade. Curtimos tanto o que ouvimos que fomos atrás dos caras para mergulhar nas águas turvas dos pensamentos do disco e o resultado você pode conferir na entrevista a seguir:

Zambrotta volta de um hiato de 6 anos em um contexto onde montar banda de rock se torna cada vez mais raro. Por que voltar agora e ainda acreditar nesse formato?
Adner: Acho que, antes de tudo, voltar agora representa uma jornada de maturidade nossa, tanto pessoal quanto artística. Depois do EP que lançamos em 2017, vivemos muita coisa juntos: fizemos shows, viajamos, tivemos a chance de abrir para bandas que admiramos, como gorduratrans, Vitor Brauer, quanto tempo… Mas chegou um momento em que sentimos que havíamos atingido o teto daquele material, e precisávamos dar um passo atrás para crescer, estudar, criar mais bagagem e repertório.
Enquanto tudo isso acontecia, a vida também seguia: faculdade, trabalho, sair da casa dos pais, começar uma família… Todos esses desafios pessoais aconteceram junto desse hiato. Por isso, essa volta representa um momento de maturidade — aprendemos mais, amadurecemos como pessoas e como músicos.
Sobre acreditar no formato banda de rock: vejo que um artista coerente faz aquilo que é natural para si. Não existe, para mim, outra possibilidade senão acreditar no que sempre moveu a gente. O formato banda de rock é justamente o que transformou minha vida desde cedo, me fez acompanhá-lo, me emocionou, me conectou com outras pessoas – e é impossível negar isso. “Ensaio Sobre a Noite e o Dia” é também sobre esse agradecimento à arte, sobre valorizar o fazer artístico, sobre ser honesto com nossa verdade. No fim, tudo se resume à naturalidade de voltar fazendo o que é mais autêntico pra gente.
Lucas: Eu preciso disso. Eu gosto de fazer música e tocar com os meus amigos. Eu preciso criar e lançar música, faz parte da minha personalidade. Caso contrário eu seria só mais um nerdão de tecnologia.
Renan: Passamos um longo período tentando de diversas maneiras gravar um álbum com músicas que já haviam sido compostas. Outras foram surgindo no caminho, mas todas elas foram repensadas e transformadas enquanto fazíamos esse disco entre 2022-24.
Ter uma banda de rock é meu sonho de criança e eu me sinto muito realizado nesse aspecto com o lançamento do nosso primeiro álbum.
Acrescento ainda que o formato banda de rock tem passado por uma reformulação de linguagem. Antigamente o rock disputava o mainstream e ser um rockstar era o alvo de muita gente. Creio que as mudanças no mercado e as lutas dos grupos subalternos no campo também da arte (como o movimento punk) contribuíram para nos colocar no cenário em que estamos atualmente, no qual o rock se concentra no meio da música alternativa, com forte tom de ironia e auto-crítica que faz o modelo “rockstar” ser algo satirizado. O lugar do rock hoje, eu creio que seja na construção de comunidades alternativas e nos shows como experiência de conexão entre pessoas.
…é também sobre esse agradecimento à arte, sobre valorizar o fazer artístico, sobre ser honesto com nossa verdade.
Ainda falando de contexto. No real ou virtual, o cenário parece bem caótico: pessoas doentes e intolerantes em um mundo mergulhado em guerra e polarizações. Como é fazer arte nesse contexto sufocante?
Adner: Acredito que a arte pode tanto anestesiar quanto confrontar a gente em relação ao mundo real. Fazer arte nesse contexto pra mim é entender essa dualidade: de um lado, a arte serve como um escape, uma forma de nos compreendermos melhor, processar sentimentos e transformar experiências em algo novo antes de voltarmos, mais preparados, para a realidade.
Mas não tem como fugir totalmente do contexto — no fim, precisamos encarar a dureza de lançar um disco sem grandes conexões, sem sobrenome de peso, fora dos centros culturais tradicionais. É difícil e desgastante, mas a arte nos ajuda justamente a lidar com tudo isso: é um jeito de respirar fundo, não desistir e seguir em frente, mesmo quando o mundo parece insuportável.
Lucas: Acho que é o mesmo que fazer arte em qualquer outro contexto. A arte pode ter diversas finalidades e, antes de tudo, ela salva ao próprio artista que a faz, se feita com honestidade e com o coração. Ainda, um dos objetivos da arte é, também, incomodar. A arte e o artista são um só. Se ela incomoda, assim também o artista o faz. Em detrimento disso é importante que o artista tome um lado e não tenha medo de ser vulnerável e que entenda o contexto político brasileiro com a crescente onda fascista em que vivemos. Sendo assim, essa suposta “polarização” vem para separar o joio do trigo.
Renan: A arte trata de forma muito peculiar as questões que nos afligem. É impossível não falarmos do contexto sociocultural em que vivemos e suas problemáticas se quisermos fazer arte honesta. Creio que a arte tem um poder único de nos permitir ser vulneráveis e brutalmente honestos, ao passo que pode fazer alguém que não concorda com nossas posições ser levado a refletir sobre o nosso ponto de vista e ser tocado de forma profunda, como nunca faria em outra ocasião – contanto que se abra para isso. Porém, também há aqueles que apenas ao ouvirem “capitalismo” num tom crítico já se fecham para não serem contaminados. Dessa forma, a arte pode unir e ou pode fazer pessoas se afastarem mais. Contudo, importa ser verdadeiro e não se esconder, porque isto sim é sufocante.

Por focar nos dramas da vida e da arte, “Ensaio sobre a Noite e o Dia” poderia ser considerado um cartão de visita demasiadamente honesto? Ou seria ele uma conexão universal com o público através das fragilidades humanas?
Adner: Acho que, acima de tudo, esse álbum é um excelente cartão de visita de nossa amizade. Ele carrega muitas das nossas peculiaridades: na relação de longa data, nos gostos de cada um ou nas formas diferentes que temos de compor. Tem faixa direta, como “Saudade”, com dois acordes, refrão e um spoken word, e tem baladas ou experimentações — reflexo de vários compositores trocando e arranjando tudo em grupo. Isso acaba virando parte da nossa identidade musical.
Ao mesmo tempo, acredito que, apesar das nossas individualidades, existem sentimentos e dilemas universais que estão presentes no álbum – como a busca pelo amor, pertencimento e sentido – que atravessam todas as pessoas. Por mais pessoais que sejam nossas histórias, esperamos que elas toquem independentemente de quem escuta, porque falam de emoções profundas: alegria intensa, tristeza, melancolia, dúvidas e sonhos. O disco mergulha sem medo nesses extremos e, no fundo, pode ser um espelho para qualquer um. Acho que a honestidade do álbum está justamente em compartilhar nossas fragilidades e exageros, criando uma conexão verdadeira, quase inevitável, com quem se permite sentir junto.
Lucas: Nunca parei pra pensar nisso. Quando faço uma música eu penso em expor meus dilemas no momento, numa tentativa de ficar bem comigo mesmo através da expressão artística. Se há ou não uma conexão universal cabe a quem está consumindo a música.
Renan: A honestidade brutal faz parte do nosso fazer artístico. Não sabemos fazer de outra forma. E sabemos que ao fazermos isso, criamos ambiente de vulnerabilidade e relacionamento com quem nos ouve e canta junto. Esperamos que as músicas toquem outras pessoas, dialogando com suas próprias histórias de vida e, com isto, nos conectem a mais pessoas.
Falando nas letras, há muita reflexão e poesia nelas. Em “Homem Cruel” vocês cantam: “sensível demais ao mundo real/ às vezes a vida é um homem cruel”. Como soa esse paralelismo vindo de três jovens homens? Vocês se enxergam como cruéis ou sensíveis (ou ambos)?
Adner: A dualidade é um eixo central do nosso álbum — essa tensão entre dia e noite, entre o que é ensolarado e o que é noturno ou soturno, está em todas as faixas e, em especial, em “Homem Cruel”. A canção traduz o antagonismo entre crueldade e sensibilidade: ela começa questionando como é estar vulnerável diante de uma realidade que, muitas vezes, parece determinada a esmagar toda sensibilidade. Isso diz muito sobre a proposta do álbum, que se aprofunda na exposição de sentimentos e nesse mergulho introspectivo sobre como lidar com as dores do mundo.
A letra de “Homem Cruel” acaba tocando num ponto delicado: todo mundo é capaz de oscilar entre sensibilidade e crueldade, dependendo do momento e das circunstâncias. O mais difícil é não absorver a crueldade do mundo e não devolvê-la nem para si, nem para os outros. A arte, para a gente, é o meio de processar tudo isso, de evitar que as feridas virem armaduras. No fundo, a música expressa justamente essa luta: como manter a sensibilidade viva sem se deixar endurecer, e como não reproduzir padrões que fazem mal. Esse é o núcleo da dualidade de que falamos — e é nesse equilíbrio que damos sentido à nossa experiência e às canções.
A arte, para a gente, é o meio de processar tudo isso, de evitar que as feridas virem armaduras.
A faixa “Saudade” é um dos pontos mais altos do disco e traz um clima visceral que literalmente grita os sentimentos de vocês. Aqui, a vida parece bem amarga. Como vocês lidam com quem acha que é possível ser feliz mesmo com as injustiças do mundo?
Adner: Ainda bem que essa pergunta veio por escrito, porque se fosse ao vivo eu ia precisar de um tempo só para pensar kkkkkkk É uma pergunta complexa e, sinceramente, nem sempre sei a resposta. Acho que, no fundo, viver nesse mundo tão injusto e caótico faz a gente oscilar entre o pessimismo e a esperança. Existem momentos – e eu me lembro deles – em que foi possível ser feliz com aquilo que eu tinha, com pequenas experiências reais, sem me cobrar tanto ou me sobrecarregar pensando em tudo ao mesmo tempo.
Se a gente olhar só para os problemas do mundo, pode parecer que não existe saída além da amargura. Mas caminhar rumo à plenitude, mesmo num cenário difícil, é um movimento de esperança poderoso. Não exatamente sobre ser feliz ou triste, mas sobre estar inteiro. Lidar de forma sóbria com o que é terrível e com o que nos redime. O álbum tenta ser honesto sobre essas dores e angústias, mas também aponta para uma redenção: no final, “Revigorar” encerra com a ideia de um novo começo, de um abraço que traz leveza, mesmo numa realidade pesada. Às vezes soa até ingênuo, mas é uma ingenuidade que se permite acreditar e renovar os sentimentos.
Acho que é mais ou menos assim que lidamos: reconhecendo as dores, mas sem abrir da redenção, por mais paleativa que possa soar..
Lucas: Essa música é sobre frustração. Ela é explicitamente radical, onde subvertemos esse imaginário de sofrimento popular do emo como algo ingênuo e colocamos como sendo a raiz dele o capitalismo e todas as suas mazelas. Acredito que, realmente, é impossível ser feliz dentro desse molde de sociedade do estado burguês em que vivemos. Entretanto o contentamento e a alegria no sofrimento é uma virtude que, apesar dos malefícios do capitalismo, podemos cultivá-la. A principal referência literária é o poema de Mário de Andrade chamado “Ode ao Burguês”, onde tentei parafrasear algumas frases e reproduzir o flow agressivo do poema na música. Não só Mário de Andrade, mas também o livro de lamentações de Jeremias e seus versos amargurados quase desesperançosos. Além de, claro, ser uma letra com fortes tendências marxistas.
Renan: O pessimismo não é contrário à esperança. Chegamos no século XXI após passarmos pelo século que acreditou no futuro, como diz Bifo Berardi. O tempo em que vivemos pode ser visto como inaugurado pelas lutas da década de 70. Em 1977 o Sex Pistols lança o Never Mind the Bollocks e a frase que mais ressoa do álbum é “No future!”, como o lema de uma geração. Pois bem, passados quase 50 anos, as utopias do passado praticamente só existem nos moldes do cinismo pós-moderno. No fundo, o sentimento generalizado é de vazio existencial. Eu não acredito nessas esperanças do passado. Tenho esperança no mundo vindouro. Mas isso também não pode nos anestesiar e fazer aceitar a revolução neofascista em vigor. Se pudermos trazer um pouco da transcendência que nos move para levar as pessoas da anestesia à reflexão e ao confronto consigo mesmas, estaremos satisfeitos.
A principal referência literária é o poema de Mário de Andrade chamado “Ode ao Burguês”, onde tentei parafrasear algumas frases e reproduzir o flow agressivo do poema na música. Não só Mário de Andrade, mas também o livro de lamentações de Jeremias e seus versos amargurados quase desesperançosos.
O ar de pessimismo transita pelos cantos do disco. No entanto, na faixa-título há um sopro de esperança ao falar que “a dor é feita para ser dividida e logo depois esquecida”. Enquanto artistas, como enxergam a arte como instrumento de crescimento pessoal?
Adner: Eu não quero romantizar a dor ou o sofrimento, mas percebo que muitos dos momentos mais catárticos e marcantes da minha vida vieram justamente quando consegui superar algo difícil. Nesses momentos de superação, o amadurecimento das minhas relações — com amigos, família, pessoas próximas — foi fundamental. Acho incrível como a arte pode ser esse espaço coletivo pra gente lidar com sentimentos, trocar vivências e se identificar uns com os outros.
Quando você se vê na arte do outro, acontece algo quase mágico: existe esse elo, quase esotérico, que faz a gente sentir junto, reconhecer os próprios sentimentos e também enxergar o mundo com um pouco mais de empatia. O crescimento pessoal, pra mim, passa por essa identificação e por essas trocas sinceras. Arte, no fim das contas, é um instrumento poderoso pra reunir pessoas que, mesmo sem se conhecerem, sentem coisas parecidas — e, por meio dessa coletividade, aprendem, amadurecem e crescem juntas. É nisso que apostamos e é isso queremos viver com a Zambrotta. Inspirar e ser inspirado pelos amigos que fizemos pelo caminho.
Lucas: É tudo ruim mesmo, estamos apodrecendo e vamos todos morrer. Entretanto se em meio a toda essa realidade não existisse contentamento e esperança nada faria sentido e já teria me matado. Nisso tudo, a música serve como um pretexto pra aprender a lidar com essas mazelas. A música conecta, faz amigos, cria laços, abre portas e nos ajuda a dividir a dor que é viver.
Zambrotta é Adner Andrade (voz), Lucas Emanuel (Guitarra/Voz) e Renan (bateria/Voz).
Para quem curte: post-rock, shoegaze, dreampop, emo, lo-fi e noise.
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| Fotos: Severino Silva | @oiseverinosilva |


