Para mim, um indício de que um disco é muito bom é quando ele capta totalmente minha atenção.  Pouquíssimos trabalhos me fizeram sentir assim. Mesmo sabendo da qualidade do Rico Ayade em sua parceria com Paulo Nazareth, pus Atravesso para tocar esperando apenas um som inteligente. Mas o resultado foi muito diferente: eu emudeci. Não apenas parei tudo o que estava fazendo como silenciei toda minha mente. Mergulhei em cada palavra cantada, em cada nota tocada, em cada verso declamado naqueles intensos 31 minutos.

Atravesso mexe com as estruturas de quem o ouve. Provoca uma profunda reflexão sobre a vida, a dor, a fé e a arte. E, por isso, não resisti e fui ao contato de Rico. Com uma simplicidade e carisma cativantes, ele aceitou o convite para uma entrevista sobre esse trabalho que, sem dúvidas, é uma das melhores produções nacionais da década.

Confira nossa conversa:

Apenas Música – Assim como eu, acredito que muita gente no meio cristão, te conheceu pela parceria com o Paulo Nazareth (ex-Crombie). Conta aí um pouco sobre essa amizade e as ideias por trás das excelentes “O Mundo Anda Mal das Pernas” e “Qualquer Lugar”.

RICO – Apesar de ser cristão não faço música pra quem tá dentro da igreja. Inclusive essas duas canções não foram feitas com esse propósito, mas o inverso, chegar com uma mensagem que tivesse uma semente que pudesse dar frutos fora. Conheci o Crombie pouco antes de mudar pra SP e ao chegar aqui encontrei o Paulo e as parcerias rolaram. O Mundo Anda Mal das Pernas eu já tinha pronta. Qualquer Lugar eu tinha a letra mas não conseguia achar uma melodia e o Paulo veio com a ideia da melodia e fizemos. E ainda tem outra chamada As Horas, que também é letra minha e melodia dele, mas que não lançamos. Quem sabe um dia?

AM – Como anda a Bahia? Tudo certinho por lá? E o cenário musical?

RICO – Tem uma música baiana que diz: “Tudo certo na Bahia!” Haha. Acredito que esteja tudo lindo por lá. A Bahia é uma terra linda, de gente talentosa e guerreira. Gente que joga ovo em oportunista e não deixa essa gente se criar. A gente tem um tempo diferente do resto do mundo e também uma espécie de calma que não é passiva. Somos um povo pacífico mas jamais passivo. E isso se reflete na música. É claro que estamos vivendo uma crise nacional que vai além da política, ela está na cultura brasileira como um todo, no teatro e na música também. Mas a Bahia sempre foi conhecida por sua vanguarda e resistência. Terra de poetas e músicos geniais. No cenário atual eu destaco a força sensível do Pedro Pondé, pra mim, um dos maiores guerreiros musicais desse país. Procurem saber.

AM – Hoje a cena “alternativa” nacional tem ótimos nomes como os seus conterrâneos Vivendo do ócio, Maglore, BaianaSystem, Russo Passapusso, além do recifense Johnny Hooker, o paulista Liniker, a carioca Mahmundi, a curitibana Karol Conka e tantos outros. Como você vê essa atual efervescência?

RICO – Admito que não acompanho muito alguns desses nomes. Não por nada, não tenho nenhum tipo de julgamento, mas apenas porque não sinto aproximação comigo. A Karol Conka é a que eu mais me aproximo. Ela é maravilhosa. BayanaSystem, Maglore, Russo e os meninos do Vivendo do Ócio também gosto, e não por eles serem baianos, mas por se aproximarem mais de mim, não só artisticamente mas no discurso. No geral eu prefiro a não efervescência. Sempre fui mais do sólido do que do gasoso. Mas fico feliz por todos terem seu espaço. O céu é enorme e nele cabem todas as estrelas.

AM – Indo para Atravesso, ele tem apenas 31min, mas é carregado de uma complexidade incrível. Como surgiu a ideia de articular música e poesia?

RICO – Eu cresci ouvindo Bethânia. Acho que só isso já responderia (risos). Mas sou poeta e escrevo desde os 6 anos de idade. Não tinha como a música estar separada da poesia. Na verdade a música é uma forma de poesia. E sendo ator, trago muito essa coisa da interpretação pra canção. Acho que no fundo tá tudo ligado. E é como cê disse, são 31 minutos de complexidade. Acho que é o tempo certinho de ser atravessado sem querer se jogar da janela (risos), porque nem sempre é fácil se aprofundar no outro e na gente mesmo.

AM – Falando nisso, o que você anda lendo e ouvindo ultimamente?

RICO – Eu estou sempre lendo algo, mesmo que não termine e leia 8 livros ao mesmo tempo. Manoel de Barros, Rubem Alves e Mario Quintana estão sempre na minha mesa. Tem um poeta contemporâneo chamado Allan Dias Castro, que eu gosto muito também. Tenho ouvido os de sempre, Caetano, Bethânia, Gil, Gal, Tom Zé, Belchior, Zeca Baleiro etc, e os mais novos César Mello, Rabi Rodrigues, Pedro Pondé, Thomas Meira, Victor Cupertino, Taz Mureb, João Fênix, Isadora Medella, Thathi e Flaira. Procurem saber desses também (risos).

AM – Atravesso é essencialmente voz e piano. Como foi o processo para chegar nesse direcionamento?

RICO – Eu sentia a necessidade de fazer um disco mais silencioso. Estamos vivendo uma época perigosamente barulhenta e veloz, porque o barulho que se faz não diz nada, e essa velocidade não nos leva a lugar algum, e se nos leva, não há tempo de carregar nossa bagagem, então é uma viagem vazia. A pressa e o ruído constantes estão calando a poesia que muitas vezes reside no aquietar-se e ficar em silêncio. Daí a minha vontade de gritar em silêncio as palavras que ecoam no Atravesso, porque primeiro o silêncio gritou para que eu pudesse ouvi-lo. Sei que é um disco que vem na contramão das efervescências barulhentas, mas era exatamente essa a intenção, causar estranhamento nos dias atuais, um certo incômodo em quem está imerso nessa espiral do barulho veloz, e propor além do questionamento, o silenciar tão necessário ao nosso próprio aprofundamento.

AM – Você tem pretensão de lançar Atravesso em disco físico. Como você vê essa produção em tempos de streaming?

RICO – Sim. Acredito que o disco físico deve sair até o final de setembro e vai estar disponível nas lojas e nos shows. Hoje em dia poucos compram discos. A minha geração talvez tenha sido a última a ter o prazer de comprar LPs e Cds, porque pegamos bem essa transição. Hoje em dia o disco físico é muito mais um cartão de visitas do que, de fato, um ganha pão. Mas eu, como bom sonhador que sou, ainda espero vender bastante.

AM –  Teu trabalho é, de fato, uma poesia musicada, falando sobre sentimentos, dores e experiências de vida com uma sensibilidade ímpar. Trazes referências de quem para tua identidade musical?

RICO – As referências são muitas e variadas. Eu sou um tropicalista contemporâneo. Me alimento de tudo o que me toca. No final isso resulta no que crio, talvez não tão claramente, mas no fundo tem de tudo ali. Não ficou muito claro, eu sei, mas dentro dessa selva é que a vida brota.

AM – “Mãe” é de Caetano. Como foi a inserção dela no disco?

RICO – Sempre quis regravar Mãe. Ela sempre fez parte da minha história musical. Caetano, de uma forma triste, mas grandiosamente linda, deixa claro que a mãe brilha em tudo o que ele é e faz, e de alguma forma eu sempre senti isso em relação a minha mãe, então tem uma coisa de claramente ser uma declaração de amor à minha mãe.

Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o meu caminho e o teu caminho
É um nem vais nem vou

AM – E sobre “Olha Esse Rapaz”? Esse rapaz tem identidade?

RICO – Olha, esse rapaz, tem sim identidade. Essa pérola foi escrita pelo meu amigo gênio César Mello (que eu citei lá em cima nas indicações do que ouvir). César e eu crescemos com os valores cristãos, então muitas das nossas canções tem ali algo que permeia entre o humano e o espiritual. Essa canção fala um pouco sobre esse herói que pode destruir todos os seus inimigos mas que decide se entregar por eles. Só conheço um cara que agiu assim, o mesmo que se entregou por amor, que não julgou o amor e que deixou um único mandamento: o Amor.

AM – Faltam palavras para comentar “Levante”. Particularmente eu já a vejo como um clássico, um revival das pérolas de Chico Buarque e tantos outros nos anos de chumbo. Conta um pouquinho do processo de criação dela pra gente.

RICO – Obrigado e amém! “Levante” foi uma das canções mais difíceis da minha vida. Nem tanto pela composição ou métrica, mas pela carga emocional contida. Ela nasceu no momento que vi a notícia de que uma criança de 10 anos havia sido assassinada pela PM numa favela do Rio. Quando vi a foto daquela mãe chorando, o corpo daquele menininho na escada, e a cara de paisagem do policial, me deu um dos piores cliques que eu já tive na vida, o de que nos falta o mínimo de humanidade e a clareza do lugar terrível onde chegamos. Os pais nordestinos voltariam pro Nordeste. Vieram tentar uma vida melhor. Voltariam sem a vida, voltariam pior. Aquilo foi devastador pra mim. Eu fiquei sentado inerte na frente do computador, chorando por aquela criança, chorando pela mãe e pelo pai, chorando por tantos outros que se foram e se vão todos os dias sem que ninguém se importe. São tantos Amarildos, tão perto da gente. Rafael Braga preso. Corruptos assumidos, comprovados e condenados, soltos, vivos e ricos, debochando da cara de cada um de nós, “coxinhas e mortadelas”, que se alinham à frente da batalha para que eles recolham os despojos da nossa desgraça. Levante é um grito desesperado para que a gente se dê conta de que a guerra não é entre a gente, mas contra eles. É uma tentativa de chamar à consciência coletiva para a luta, que tem de ser coletiva em primeiro lugar. Só vamos melhorar o individual quando pensarmos no coletivo e para pensarmos no coletivo precisamos melhorar o indivíduo que somos.

AM – O finalzinho de Levante denuncia teu posicionamento político. O que tu achas da relação música e política?

RICO – A música, não só ela, mas a arte em geral deve cumprir seu papel social. Vejo muitos artistas usarem a desculpa de que “o povo já sofre muito, eu vou levar alegria”, “vou fazer música pra o povo sorrir e esquecer um pouco os problemas”, mas na verdade falam isso para manter um posicionamento que eu chamo de vaselina, que só escorrega, faz um social e não se desentende com ninguém. A verdade é que até Jesus se desentendeu com os corruptos e mentirosos da sua época. Esse tipo de posicionamento de alguns artistas, ao contrário do que eles dizem pra si mesmos, contribui muito mais para a alienação das pessoas do que pra outra coisa, porque o artista é sim um porta-voz, tem sim uma responsabilidade social. A música tem sim que entreter, imagina que chato seria se fosse só denúncia e política? Mas o que digo é que na mesma medida do entretenimento, deve haver também a conscientização, o retrato da época em que vivemos e o recorte da luta que travamos. Nenhum artista pode se eximir do seu sacerdócio. O artista que foge à essa responsabilidade assina um atestado de que ele próprio é um alienado. Aí, sendo assim, entrega a Deus e adeus.

 

AM – Particularmente, “Atravesso” traz muita espiritualidade para nós. Qual tua relação com o divino?

RICO – Sou cristão. Cresci na igreja, entre batista e presbiteriana, e acho ambas muito boas em alguns aspectos. A instituição é feita de humanos e por isso sempre vai estar em aprendizado. Hoje em dia não frequento nenhuma denominação e nem sou membro de nenhuma instituição. Não estou fazendo apologia pra ninguém deixar de frequentar os templos, essa é apenas a minha experiência pessoal e portanto serve unicamente pra mim. Aliás, eu acho importante ir sim, ter comunhão e se alimentar. Mas pra mim (pessoalmente) isso tudo funciona de uma forma diferente e particular. A minha relação é com Deus, unicamente com Ele, e isso é um grande alívio. A minha igreja hoje sou eu e alguns amigos e familiares em casa, ou quando nos falamos para saber como estamos, quando oramos uns pelos outros, quando nos ajudamos no dia a dia, quando estamos presentes no agora um do outro, nos ajudando e fazendo diferença real na vida um do outro, e ao final expandindo isso aos de fora.

AM – Por fim, Atravesso é recém-lançado, mas “Heurói” já é a tua próxima empreitada?

RICO – Sim. O “Heurói” é um disco que já está quase pronto no campo das ideias. Todas as músicas já compostas (a não ser que surja mais alguma no caminho). Já pré produzimos quase todas e já está tudo bem adiantado. Essa semana mesmo já começamos as gravações. Não é que eu já vá lançar, mas como ele já existe há 2 anos no papel e nas prés, não vai demorar muito a sair. Acredito que ele chegue no final de 2018.

 

Para ser apreciada sem a pressa dos nossos dias, Atravesso é uma preciosidade feita para ouvidos sensíveis e ansiosos por profundidade. Rico, muito obrigado!

 

Sobre o Autor

Modernizar o passado é uma evolução musical. (8)

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