Bastaram os primeiros versos de Lá de Casa para eu concluir: que música sensacional! Com um encantador arranjo feito pelo Dum, essa faixa continua exalando a brasilidade que o Marcos tanto comenta faltar na música cristã brasileira. Sua pegada folclórica já me fez a imaginar, ao vivo, com uma boa roda de coco e muitas palmas (Recife que lhe espere!).

Compondo a iniciativa “Paisagem Sonora” que tem como proposta mostrar “As trilhas entre casa e estúdio. O som e o ruído das canções que entrarão (ou não) no próximo disco. “, acredito que Lá de Casa merece uma análise mais detalhada por ver nela ensinamentos importantes para a caminhada cristã.

A repetindo várias vezes, depurando cada frase e sonoridade, ela me trouxe um encanto cada vez maior. É impressionante a habilidade do Marcos com as palavras. De fato um dom que vem o fortalecendo como um dos mais inspiradores compositores da atualidade.

Como obra de arte, a música permite uma pluralidade de interpretações de acordo com que a ouve, no entanto, mesmo com a poesia rebuscada do Almeida, acredito ser possível supor algumas coisas sobre essa canção. Nas primeiras audições tentei reconhecer a qual “casa” ele se referia. Um ouvido um pouco mais atento percebi que se trata da igreja, a nossa amada e tão complicada igreja. O trecho que dei o xeque-mate foi:

Eis uma casa, que segura e prepara
não tem vento que desaba, se Aquela pedra lhe sustentar!

Fazendo uma referência poética aos versículos Mateus 7:24 e 16:18, Marcos canta sobre a beleza e a riqueza que a vida em comunidade nos proporciona. Quando essa ficha caiu, percebi o quanto Lá de Casa é ousada, pois basta lembrar a crise que a atual igreja brasileira está passando. Falar de igreja em meio a tanta corrupção, extremismo e radicalismo é provocar tanto que está fora quanto quem está dentro. Para os olhos do mundo, a igreja não apenas é uma lugar de gente alienada, mais do que nunca, é lugar de gente hipócrita e preconceituosa. Isso sem falar nos tantos que compartilham a fé cristã, mas foram feridos por ela. Imagino o que é um “desigrejado” ouvindo os trechos:

É lá de casa, essa força, essa raça
pra tomar porrada e me levantar!

[…]

É de lá de casa que eu ganho a estrada
E corro o mundo inteiro,
tento, tombo, ergo canto, luto, vou e volto pra lá*

*essa frase me soou tão Belchior e Gonzaguinha hehehe

Ao invés de ser um lugar de acolhimento e transformação, muitas igrejas se transformaram em redutos de intolerância. Ao invés de amarem e exortarem com misericórdia, muitas igrejas maltratam e adoecem seus fieis com suas religiosidade sem Bíblia. Infelizmente falo isso de experiência própria. Assim como muita gente, tenho muitas histórias para contar sobre situações onde a igreja não foi igreja e me deixou ao relento. Essa dor e incômodo faz lembrar a saudosa Fruto Sagrado em Superman:

Se não fosse por você eu jogava a toalha
Tenho visto tanta coisa errada nesta estrada
Muito falso herói se achando o tal
Iludido com aplausos, elogios, com pedestal

No entanto, como canta o Marcos, é lá de casa (da igreja) onde a gente encontra a força, a raça pra tomar porrada e se levantar. Não que ela seja a fonte, mas é através dela, através do exercício do aprendizado e da comunhão, que Deus nutre os seus para encararem os desafios da caminhada.

É de lá de casa que a gente também ganha o estrada. É na igreja onde nossos pés são fortalecidos para “correr o mundo inteiro”,  cumprir nossa missão e sair pra amar a Deus. E mesmo que a gente lute e tombe, é pra lá onde a gente deve voltar. A igreja deve ser a nossa comunidade terapêutica, o lugar onde podemos tratar nossas feridas e sentir o amor divino manifestado em pessoas que querem nosso bem.

Sim, eu sei. Isso não é simples, nem fácil. Como disse, eu passei bem por isso e senti na pele a dor de ser ferido, julgado e não conseguir encontrar apoio quando mais precisava. Mas isso é um desafio para nós, pois precisamos lembrar de uma outra canção cantada pelo Marcos que diz: “eu sou casa, lugar de Deus”. Ou seja, a igreja que criticamos somos nós, afinal como o apóstolo Paulo fala “há um só corpo e um só Espírito” em Efésios 4:2 (vale a pena ler o capítulo inteiro).

Como diria Eduardo Mano, Lá de Casa fala sobre velhas verdades. Um sopro criativo que vem nos relembrar o que é ser igreja e a importância de a restaurarmos segundo os princípios bíblicos para que o mundo encontre nela (leia-se “em nós”), refúgio, amor e salvação.

LÁ DE CASA

Letra e Música: Marcos Almeida ®
Produção e Arranjo: Dum [http://bit.ly/DumChannel]

LÁ DE CASA

É lá de casa, essa força, essa raça
pra tomar porrada e me levantar!

Quem vê a página, esse vídeo, essa cara
pensa que é marra pra me anunciar!

Mas é lá de casa, toda doce palavra
a oração mais sagrada, o amor pra me libertar

Por isso eu saio pra te amar / o amor não preciso procurar
Toda vez que eu vou pro mundo / eu ouço Deus falar.

Que é lá em casa, nessa rua, ou na praia
doutro jeito, noutra quadra,
onde dois plantarem a paz

Eis uma casa, que segura e prepara
não tem vento que desaba, se Aquela pedra lhe sustentar!

É lá de casa essa pele marcada
todo verso que te acalma o som que vai te embalar.

Por isso eu saio pra te amar / “Não precisa procurar”
Toda vez que eu vejo o mundo / eu ouço Deus falar.

É de lá de casa que eu ganho a estrada
E corro o mundo inteiro,
tento, tombo, ergo canto, luto, vou e volto pra lá

 

Sobre o Autor

Modernizar o passado é uma evolução musical. (8)

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