Desde que o mundo é mundo as pessoas brigam por causa de gêneros musicais. Tá, tudo bem, talvez não tenha tanto tempo assim. Mas com toda certeza você já participou em uma discussão sobre a qualidade do gosto musical de algum amigo, vizinho, etc. E muito provavelmente também já escutou alguém criticar o seu. Mas afinal, quem separou a música em gêneros? O objetivo dessa série de artigos é tentar dar uma luz nesse assunto. E também falar um pouco sobre a música no meio cristão, certos preconceitos que foram surgindo e sobre como a indústria musical ajudou o crescimento dos artistas que hoje curtimos tanto.

Durante muito tempo o que distinguia a música era se ela era tocada na Arábia, Índia, Itália ou África, ou seja, seu local de origem. Nem mesmo o fato de serem usados instrumentos tão diferentes como um tambor ou uma cítara gerava uma classificação musical distinta. Na Bíblia, o fato é que não há em nenhum momento distinção entre as músicas que cantam as vitórias em guerras (Salmos), falam do sofrimento do povo (Lamentações), ou mesmo exaltam a beleza da mulher (Livro dos Cânticos). Todos tem seu espaço na Palavra e é de se imaginar que muitos desses eram realmente canções cantadas pelo povo em certas ocasiões.

Sandro Botticcelli - The Punishment of Korah and the Stoning of Moses and Aaron

Sandro Botticcelli, O Castigo dos Rebeldes (ou “The Punishment of Korah and the Stoning of Moses and Aaron”)

Somente na Idade Média é que de fato passou a se separar a música que era “do povo”, da que era “da elite”, ou “do clero”. O termo música sacra surgiu no Século VI. Mais ou menos embalado pelo surgimento do canto gregoriano. Daí em diante a Igreja foi aos poucos separando em categorias bem distintas o que podia e o que não podia ser cantado nos templos. Engraçado é que mesmo com a rigidez que foi aos poucos surgindo, hinos tradicionais eram cantados como se fosse desde sempre sacros, mas se sabe que muitos desses eram adaptações de músicas clássicas como “Ode To The Joy” da 9ª sinfonia de Beethoven, por exemplo, que se tornou o hino “Joyful, Joyful We Adore Thee” ou “Tuas Obras de Coroam”, em português. Com o fim da Idade Média e a chegada do Renascentismo (e, consequentemente, do antropocentrismo), a Igreja logo deu um jeito de separar o sacro do profano na música.

Mas é no século XIV, nos EUA, que de fato a música que conhecemos hoje toma forma. Depois de ficarem livres do regime escravista, longe de suas origens e tendo esquecido de sua própria língua, muitos negros se convertem ao cristianismo e encontram na religião forças para reconstruir suas vidas. Assim como os hebreus, na saída do Egito, esse povo livre também canta cânticos espirituais que mais tarde seriam chamados de Spitiruals (ou negro spirituals), uma mescla de temas religiosos com os sons de vozes e palmas, similar aos ritmos africanos.

falando entre vós com salmos,
entoando e louvando de coração ao Senhor
com hinos e cânticos espirituais…” – Efésios 5:19

Num primeiro momento, nas congregações segregacionistas, somente a música erudita, clássica, sacra, tem vez entre os hinos cantados pelos brancos. A “música dos negros” era profana, por suas origens. Então os negros começam a fundar suas próprias igrejas, cantando com seu próprio estilo seus hinos. Dessa época vem o hino “Amazing Grace”, composta pelo traficante de escravos John Newton, que após quase naufragar numa tempestade, decide deixar o tráfico e compõe a música num estilo muito próximo ao das canções dos negros.

The Black Man of the South (Charles Stearns, New York, 1872)

The Black Man of the South (Charles Stearns, New York, 1872)

No século XX, no entanto, com a chegada do blues, do soul, do jazz e do country, é que os estilo musicais começam a ficar tão distintos e cada vez mais separados entre sacro e profano, ou, religiosa e secular. E também nessa época é que aparece pela primeira vez o termo gospel associado à música, como forma de distinguir o Spiritual de outros estilos de música sacra e secular cantada pelos afro-americanos. Geralmente o termo era associado aos cânticos em uníssono, sem uso de instrumentos, em coro. Com a popularização do rádio, nos anos 1920, a música gospel se torna cada vez mais popular. Pouco depois, com a começo do movimento Pentecostal nas igrejas cristãs, as guitarras elétricas, instrumentos de percussão e outros começam a ter espaço nas reuniões e passam a transformar aos poucos o estilo. Nessa época Elvis Presley e Jerry Lee Lewis surgem dentro das igrejas, antes de alcançar o sucesso no meio secular.

Em 1964 é fundada a Gospel Music Association (GMA), associação que tem como premissa servir como um network para os artistas, a indústria, rádios e os pontos de venda, dando suporte para o desenvolvimento da música cristã. A partir de 1969 a GMA começa a promover a primeira – e hoje, a maior – premiação da indústria cristã, o GMA Dove Awards, que anualmente é realizado no estado do Tennessee. Ao poucos, a cidade de Nashville vai se tornando a capital mundial da música cristã, abrigando, além da própria GMA, as principais gravadoras e produtoras e atraindo cada vez mais artistas para a região.

E nesse ponto toda a indústria da música cristã começa a se transformar…

Sobre o Autor

Designer, fotógrafo, metido a escritor, amante de (boa) música, internet heavy user e blogueiro amador, mineiro, cruzeirense, cristão. Praticamente só ouve rock, quase sempre internacional. Ouve música quase o tempo todo em que está acordado e, às vezes, quando está dormindo também. Tocador de violão, baterista e cantor meia boca nas horas vagas.

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  • Rubens Santos

    Olá, bom dia, onde encontro o restante do artigo?