Leia ouvindo Caneta e Papel

Esses dias tenho pensado bastante sobre a importância das palavras e do ato de escrever no Cristianismo. É impossível ser cristão sem leitura ou sem acesso às palavras (mesmo os apenas ouvintes). A Bíblia inequivocadamente nos aponta a centralidade do verbo (se eu fosse boa em gramática ia abusar aqui do uso das sintaxes).

Paulo em um texto à igreja em Roma afirma que tudo o que foi anteriormente escrito, foi escrito para nosso ensino, consolação e esperança. É muito confortante dar-se conta disso.

Ouvindo a lindíssima Caneta e Papel de Tiago Arrais, fui atingida em cheio por esta verdade. Na verdade fui abraçada. Pois há escritos feitos para nossa esperança. Em dado momento da canção que trata sobre uma jornada, Tiago pede “meu bem, não esqueça caneta e papel, para por em palavras o que iremos ver, na rota adiante de nós, escrita por nossas mãos…”. Quantos cristãos não tiveram atitudes semelhantes ao longo da história? Quantos cristãos não sentaram ao final do dia, pegaram seus diários e colocaram em um papel as suas experiências com Deus? Esse tipo de movimento é terapêutico e mostra maturidade: a coragem de registrar sentimentos, pensamentos e intenções do coração. Isto tem dois resultados: um é o benefício para própria pessoa, pois escrever é uma forma de organizar pensamentos e serve como catarse; outro é para nós, seus inesperados interlocutores que num dado momento teremos acesso a seus diários e seremos edificados, seremos consolados, receberemos esperança porque constataremos: esse cristão é tão humano quanto eu!

Todos nós em um dado momento nos inspiramos em outros cristãos e tivemos acesso a suas histórias de vida. Já perceberam que quase todos os cristãos que são considerados padrão de fé mantinham um diário? Eu gosto de ler os diários  de cristãos que são referência para mim. As palavras deles reafirmam para mim que professamos uma fé partilhada por simples seres humanos, quebrados, frágeis e cheios de dúvidas. Enquanto os tratados teológicos e os sermões nos púlpitos nos apresentam “homens cheio de poder”, os diários nos dão vislumbres dos dias de fé abalada, da tomada de consciência da própria impotência e da graça abundante que cerca o cristão dia a dia. Ter acesso a isso é bom porque nos ajuda a perceber que não há um justo sequer, que todos somos pó e dependentes de graça.

O Cristianismo é feito pelas palavras, conduzido por elas e se proclama a partir delas. Cristo é a Palavra!

O Cristianismo é marcado por experiências pessoas e singulares com Deus, que se coletivizam no partilhar das histórias. Alguém disse que além de átomos, somos feitos de histórias. Deus sabe disso. Ele sabe da importância de um “baseado em fatos reais” para o fortalecimento de nosso caráter e daí ele convida alguns para, a medida que vivam suas vidas, andem carregando caneta e papel e registrando tudo para o fortalecimento dos outros. Bom para nós.

Tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar, para que, por meio da perseverança e do encorajamento que vem das Escrituras, pudéssemos ter esperança”

(Carta à igreja em Roma,15.4).

Sobre o Autor

uma canção que o Bilbo não concluiu.

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